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O ANO FOI RADIANTE PARA A ENERGIA SOLAR E 2016 SERÁ ACELERADO

 

 

Tribuna do Norte

Entrevista - Rodrigo Sauaia
diretor-executivo da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR)

 

“Até 2024, a expectativa é que o setor (de energia solar fotovoltaica) tenha 7 gigawatts de projetos em operação. E, isto representará, mais ou menos, 4% da matriz energética brasileira”, garante o diretor-executivo da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR), Rodrigo Sauaia, ao ser indagado sobre a participação futura do segmento na geração de energia no Brasil. Tal estimativa, inclusive, demonstra um crescimento significativo, frente aos atuais 0,02% de potencia operando.
Junior Santos [Rodrigo Sauaia - diretor-executivo da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR)] Rodrigo Sauaia - diretor-executivo da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR).
Em passagem por Natal esta semana, onde participou do Fórum Estadual de Energia do RN, Rodrigo Sauaia destacou, também, em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, o interesse do Rio Grande do Norte no setor solar fotovoltaico, com projetos em leilões de energia e a decisão do Governo Estadual em assinar o convênio ICMS 16-2015, que reduz o imposto para a energia da micro e minigeração, ainda não regulamentado. “É uma questão do Estado tomar a liderança, estabelecendo incentivos e reduzindo barreiras”, pontuou.

Ainda de acordo com ele, 2015 deve fechar como “um ano radiante” para o setor solar fotovoltaico. “A gente teve um crescimento na ordem de 300% para o segmento de micro e minigeração. E, ao mesmo tempo, nos projetos de grande porte, das usinas solares, onde tivemos um pouco mais de R$ 8 bilhões em contratações até 2018. Um investimento que vai ser concretizado e expressivo anti os R$ 4 bilhões do ano passado”, analisou.

Qual o balanço de 2015 para o setor de energia solar no Brasil?
Esse ano foi, sem sombra de dúvidas, um ano radiante para o setor solar fotovoltaico. Uma vez que a gente teve, ao longo de 2015, um crescimento da ordem de 300% para o segmento de micro e minigeração, de pequeno e médio porte instalado em residências, comércios e indústrias.  E, ao mesmo tempo, nos projetos de grande porte, das usinas solares fotovoltaicas, tivemos um pouco mais de R$ 8 bilhões em contratações até 2018. Um investimento que vai ser concretizado. Isto representa também um aumento expressivo ante os mais de R$ 4 bilhões do ano passado. De fato, foi um ano muito positivo para o setor.

O setor teve outros ganhos, além do financeiro?
A gente teve também esse ano a revisão, a atualização, da chamada resolução normativa 482, de 2012, da micro e minigeração, e que vai permitir, a partir de março de 2016, a criação de novos modelos de negócio, a participação de mais pessoas e empresas, usando energia solar fotovoltaica no seu dia a dia. Esse ano tivemos ainda, do ponto de vista global, um avanço muito importante para a fonte solar fotovoltaica que é o acordo climático da COP21, onde mais de 190 países se reuniram e pactuaram uma transição da economia mundial para uma economia de baixo carbono. Da qual a energia solar fotovoltaica certamente será parte integrante dessa solução.

O Rio Grande do Norte seguiu esta mesma linha de crescimento?
O Rio Grande do Norte começou a participar agora, e, teve projetos contratados no leilão de energia solar fotovoltaica recentemente realizado. Isso significa que até 2018 teremos aqui projetos de energia solar fotovoltaica em operação no Estado. Além disso, o Estado está entre as dez unidades federativas com maior investimento em micro e minigeração. E, o Governo Estadual já aderiu ao convênio ICMS 16-2015, reduzindo o imposto sobre a energia da micro e minigeração. Falta agora, no entanto, que o Governador assine e, digamos, formalize essa adesão, através de um decreto que precisa ser publicado em Diário Oficial. Essa é uma expectativa que o setor tem ainda para o curto prazo.

Em relação aos R$ 8 bilhões que estão contratados até 2018, não há riscos destes investimentos serem afetados pela atual conjuntura econômica do país?
Não. Os preços dos projetos que foram contratados neste ano, são considerados preços realistas. Eles já foram reajustados pela alta do dólar, então, o próprio Governo Federal tomou o cuidado de revisar o seu preço de contratação da energia e os empreendedores também estão bem conscientes do cenário atual da economia brasileira e dos cenários nos próximos anos. Eles mantiveram seus preços em patamares adequados para que estes projetos saiam do papel e sejam, de fato, construídos.

A conclusão dos projetos é exclusiva de quem contratou?
A responsabilidade é dos empreendedores. Então, não existe chance desse projeto não entrar em operação e os empreendedores terem algum benefício com isso. É o contrário. Se eles não tiverem, não cumprirem com a sua parte do contrato, eles seriam penalizados por isso.  Logo, é do melhor interesse dos empreendedores e do setor fazer com que estes projetos cheguem à conclusão. Se tornem realidade.

Apesar da situação econômica do país, com este crescimento, então, o impacto financeiro vai ser positivo?
Sim. O impacto vai ser positivo uma vez que a energia solar fotovoltaica vai entrar, substituindo energia termoelétrica a custos mais elevado, que são utilizados pelas nossas termoelétricas de apoio do sistema e que tem operado, praticamente, em período integral. Então, vamos ter um benefício econômico. Ao mesmo tempo, a gente vai ter um benefício ambiental, uma vez que o impacto e a emissão de gases e de material particulado no nosso país será reduzido. E um benefício social importante, através da geração de novos empregos e possibilidade de desenvolvimento de uma nova cadeia produtiva no Brasil, de equipamentos e produtos de energia solar fotovoltaica.

O quanto o setor já empregou até hoje? E ainda pode empregar com os novos investimentos?
Estes são números um pouco difíceis de se conseguir. Mas uma usina fotovoltaica, para cada megawatt instalado por ano, ela gera, praticamente, mil empregos diretos. Quanto a empregos indiretos eles chegam a ser 3x mais que os diretos gerados. Isso significa que é um dos setores de energia elétrica que mais emprega para cada megawatts instalado por ano.

Com o que foi contratado nos últimos leilões, quanto deve ser a geração futura de empregos?
Se vão ser, mais ou menos, dois mil megawatts instalados em 2017, que foram os projetos contratados em 2014 e 2015. E, para o último leilão agora, mais mil megawatts, a gente vai ter uma geração de empregos na ordem de 30 mil, no processo de instalação desses sistemas. Por isso mesmo, a Absolar recomenda ao Governo Federal que, no ano seguinte, faça mais um leilão. Para contratar projetos para 2018, complementando o volume contratado, que atualmente está em 1 gigawatt, para 2 gigawatts. E, faça leilões para 2019, permitindo planejar os empregos desse ano subsequente.

O retorno financeiro e a manutenção destes empregos, pela situação econômica do país, pode ser diminuído a curto prazo?
Ao mesmo tempo que tivemos no país uma alta do dólar, que impacta negativamente a competitividade da energia solar fotovoltaica, nós tivemos também um aumento muito elevado da tarifa de energia elétrica. Na média nacional, é mais ou menos 50% esse incremento. Por conta disso, o impacto acabou sendo positivo. A nossa fonte continua reduzindo preço dos equipamentos e aumentando a sua eficiência. Então, quando a gente compara 2014 e 2015, a energia solar fotovoltaica, na verdade, tornou-se mais competitiva.

Em entrevistas passadas, o Sr. Afirmou que o setor chegaria a representar 1% da matriz energética brasileira com os projetos contratados. Essa projeção continua?
Eu tenho projeções mais atualizadas e, até 2024, a nossa expectativa é que o setor tenha 7 gigawatts de projetos em operação. Já construídos e gerando energia para o país. E, isto representará, mais ou menos, 4% da matriz energética brasileira. Somado a isso, também teremos um número grande de sistemas de micro e minigeração, que vão contribuir para reduzir o consumo de energia elétrica nas cidades, através dessa geração local e em cima do ponto de consumo.

O Governo do RN adotou o convênio  ICMS 16-2015, mas, ele ainda não está em operação. Nos Estados que isto já ocorre, na prática, tem sido benéfico?
Em São Paulo, no Ceará, em Pernambuco e no Tocantins, esses convênios já foram ratificados, através de um decreto estadual.  Na prática, a população e as empresas são isentas do recolhimento de ICMS na micro e minigeração. Eles já não pagam mais imposto sobre o que eles geram em seu próprio telhado e compensam com seu consumo. E, é fundamental que o Rio Grande do Norte faça a mesma coisa, para que a população tenha acesso a este benefício.

A maior demanda potiguar de energia solar fotovoltaica ainda é de empresas. Quais os fatores para isto?
Na verdade, por volta de 70% de todos os sistemas instalados no país, de micro e minigeração, são residenciais. Em número de sistemas. Em termos de potência, as empresas ainda representam um volume importante porque tem uma demanda de energia maior, então, seus sistemas são maiores. Mas, vemos que há um interesse grande tanto da pessoa física, porque possuem a tarifa mais cara e onde compensa mais rápido gerar sua própria energia, quanto das empresas, porque buscam sempre competitividade e tem, muitas vezes, acessos a linhas de financiamentos mais adequadas. Cada uma tem o seu diferencial.

Assim como na Energia Eólica, tem se visto um alto investimento no Piauí e na Bahia, até nos próprios leilões, com o número de projetos contratados. O RN está ficando para trás?
De forma alguma. Na realidade, o Rio Grande do Norte ele entra agora, como um Estado interessado em desenvolver energia solar. Ainda é muito cedo para dizer quem é a liderança de energia solar fotovoltaica no Brasil. Na prática, todos os Estados que tiverem interesse em se tornar referência nesse segmento podem, porque esse é um recurso muito bem distribuído no país. Diferentemente de outras fontes onde o recurso é muito concentrado em determinadas regiões. Na solar, o Brasil inteiro pode desenvolver sistemas com grande potencial. Por isso, é mais uma questão do Governo Estadual tomar a liderança, estabelecendo incentivos e reduzindo barreiras para o desenvolvimento da tecnologia, como reduções tributárias, condições de financiamento adequadas, um programa estadual de fomento à geração distribuída e ainda dar o exemplo, instalando em seus prédios públicos, e ter condições de se tornar referência no setor.

No RN, a Absolar enxerga quais limitações?
Felizmente, para a energia solar fotovoltaica, os equipamentos são muito modulares e eles podem ser facilmente transportados. Isso é muito simples. Então, não existe uma complexidade logística. O que a gente ainda precisa avaliar e melhorar são algumas questões de incentivo, como já mencionei, a questão tributária, que é um gargalo e também um envolvimento maior dos órgãos de licenciamento ambiental, para os projetos de maior porte, para que seja realizado de uma forma profissional, mas, célere. Rápida. Para que isso não cause um aumento de custo aos empreendedores.

Para 2016, o que podemos esperar?
Esse foi um ano, de fato, muito importante para o setor, muito positivo. E, a nossa expectativa para 2016, na verdade, é que a micro e minigeração continue acelerando seu crescimento, o mesmo para a geração distribuída e na centralizada recomendamos que o Governo Federal promova dois leilões. Um para 2018 e outro para 2019. Com isso, acreditamos que seja possível contratar um volume da ordem de gigawatts.

Quem
Rodrigo Sauaia tem 31 anos  e é diretor-executivo da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR).

Formação
Graduação em Química pela USP, mestrado em Energias Renováveis no Reino Unido e na Suiça, e doutorado em Energias Renováveis, com foco em Engenharia de Materiais e Energia Solar Fotovoltaica, pela PUC-RS e pelo Instituto Grael Hoffen, da Alemanha.

Fórum
Sauaia também falou sobre o crescimento da energia solar no Brasil durante o  Fórum Estadual de Energia do RN, em que foram destaques, ainda, a expansão e os desafios da energia eólica em áreas como capacitação profissional e inovação tecnológica. O Fórum foi uma realização do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne) e das Comissões de Energia e de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa do RN e contou, entre outros, com o apoio do IBP, ABEEólica, Sebrae-RN, Sindicato das Empresas do Setor Energético do RN - Seern, CTGás-ER e do Governo do Estado.